Na última sexta-feira (25/7), o SindBancários promoveu a Conferência Livre para as Mulheres, com o mote “Bancárias fortalecendo a representatividade e a democracia”, que reuniu dezenas de participantes, incluindo dirigentes sindicais, bancárias e outras mulheres. A atividade virtual propôs um espaço de escuta ativa e construção coletiva, como preparação à 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres (CNPM), que será realizada entre os dias 29 de setembro e 1º de outubro.
No encontro, foram debatidos temas urgentes como diversidade no mercado de trabalho, igualdade de oportunidades, protagonismo feminino e os múltiplos tipos de violência de gênero ainda presentes nas instituições – inclusive nos bancos. Além disso, foram aprovadas propostas para a conferência nacional e eleitas delegadas que representarão o Sindicato no evento nacional.
A diretora de Juventude e Gênero do SindBancários, Claudia Stella, coordenou a atividade e destacou a importância do debate no atual contexto do país. “Esse é um tema de extrema importância num momento de tantos tensionamentos políticos. Temos que ocupar espaços e reafirmar a defesa intransigente da democracia. Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados, como já dizia Simone de Beauvoir”, pontuou.
Ela ressaltou que as mulheres bancárias vivem desafios específicos e precisam estar organizadas para vencê-los. “É hora de estarmos juntas e debatermos. Enquanto mulheres e trabalhadoras, temos que lutar para reafirmar e ampliar nossos direitos”, defendeu.
Na abertura da conferência, a secretária-geral do Sindicato, Sabrina Muniz, abordou o Julho das Pretas e a importância do acolhimento às mulheres negras que enfrentam violências – inclusive institucionais – dentro dos bancos. “Precisamos nos instrumentalizar para acolher bancárias em situações de violência, que ainda são recorrentes. Recentemente, tivemos um caso de violência institucional contra uma mulher negra na Caixa. Não podemos aceitar”, disse.
Sabrina destacou ainda os avanços e contradições na luta por representatividade. “Temos, na atual diretoria do Sindicato, uma paridade inédita: sete mulheres e sete homens, fora o presidente. O novo estatuto da Caixa estabelece que 30% dos cargos de confiança sejam ocupados por mulheres. Tivemos também o lançamento do programa ‘Mulheres na TI’, pois os cargos de TI estão crescendo nos bancos e esse também deve ser um espaço das mulheres”, ponderou.
As advogadas Bruna Fernandes Marcondes e Paula Nocchi, do FCN & Lacerda Advocacia participaram da conferência. O escritório presta assessoria em diversidade para organizações e atua junto ao Sindicato desde março para elaboração de um protocolo de acolhimento para vítimas de discriminação nos bancos.
As profissionais fizeram uma apresentação sobre como questionar qual o mundo que as mulheres esperam ter e pensar políticas para as mulheres, com um panorama histórico e estrutural da desigualdade de gênero no Brasil e os desafios para a construção de políticas públicas efetivas.
Paula abordou a trajetória das mulheres na política, a partir do direito ao voto, conquistado em 1932, e da primeira prefeita eleita, em 1950. “Hoje temos 12% de prefeitas e 16% de vereadoras. Dos 27 governadores, apenas três são mulheres. Somos 52% do eleitorado no Brasil, mas ocupamos apenas 18% das vagas na Câmara e 16% do Senado. Isso não se refere apenas à representatividade, mas tem impacto direto na priorização de pautas femininas”, apontou.

Entre os marcos legais que permitiram avançar no espaço político feminino está a lei de cotas de 30% de mulheres nas candidaturas eleitorais, de 1997. Entretanto, conforme a advogada, a medida só entrou em prática de fato a partir de 2018, com a reforma eleitoral, que garantiu obrigatoriedade do repasse de 30% do fundo eleitoral para campanhas femininas.
Bruna detalhou os obstáculos estruturais enfrentados pelas mulheres nos espaços políticos, no mercado de trabalho e na sociedade como um todo. “Ainda há resistência a lideranças femininas dentro dos partidos, ao avanço de mulheres em cargos de comando. Temos ainda a divisão sexual do trabalho, com as mulheres sendo responsáveis pelo cuidado com filhos e idosos, além do trabalho doméstico não remunerado e da cultura machista que nos cobra expectativas sobre aparência e comportamento”, falou.
As advogadas também discutiram a violência de gênero, que atinge mulheres em diversas esferas de atuação. “As formas de violência são complexas, explícitas ou sutis. Vão da invisibilização e do abuso psicológico até o feminicídio. É urgente ampliar a legislação para que proteja as mulheres em todos os espaços”, afirmou Paula.
Elas destacaram que, dentre os fatores que influenciam a violência de gênero, nem todas as condutas são criminalizadas pelo direito penal.
A atuação das mulheres no sindicalismo brasileiro é marcada por lutas e conquistas importantes, como a licença-maternidade e o combate ao assédio sexual, conforme Paula. Inspiradas por coletivos feministas surgidos na Europa nas décadas de 1970 e 1980, trabalhadoras latino-americanas avançaram na organização por direitos e contribuíram para a criação de secretarias sindicais específicas, pautando a equidade de gênero e a valorização dos direitos das mulheres nas negociações coletivas.
Apesar dos avanços, a advogada ressaltou que os desafios persistem: mesmo sendo 43% da força de trabalho formal, as mulheres ocupam apenas 20% dos espaços de liderança sindical, segundo o Dieese (2023). Essa sub-representação reflete o machismo e o racismo estruturais que atravessam o mundo do trabalho.
“Muitas vezes, políticas e normas coletivas são pensadas por homens ou por mulheres afastadas da realidade da maioria das trabalhadoras, o que reforça a exclusão e invisibiliza demandas fundamentais”, afirmou Paula.
Ela apontaram que a construção de um sindicalismo feminista exige pensar políticas por e para mulheres, reconhecendo, por exemplo, o valor do trabalho reprodutivo e garantindo ambientes laborais seguros e inclusivos. Fortalecer alianças com movimentos sociais e investir na formação política das mulheres também são passos estratégicos para transformar o sindicalismo em um espaço de igualdade e justiça para todas.
Na conferência, foram apresentadas três propostas e indicadas duas delegadas para representar o SindBancários na Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. Após manifestação das participantes, elas aprovaram por unanimidade as propostas, que podem ser conferidas neste link. Para a delegação, foi escolhida como titular a diretora Claudia Stella, e como suplente a funcionária da Secretaria Executiva do Sindicato, Martina Velleda.
A também diretora de Juventude e Gênero do Sindicato e secretária da Juventude da Contraf-CUT, Bianca Garbelini, enfatizou a importância estratégica da participação na conferência nacional. “A 5ª CNPM é uma arena disputada inclusive pela direita. Por isso, é fundamental que tenhamos propostas fortes e representatividade combativa na defesa das mulheres trabalhadoras”, ressaltou.

A diretora Jurídica do SindBancários, Priscila Aguirres, celebrou a presença das participantes e reforçou o papel histórico da organização coletiva. “Fico muito contente de ver vocês aqui. Quem veio antes construiu o espaço para nós, e agora estamos construindo para as que virão. Precisamos incluir esse debate em nossa rotina atribulada e ampliar os espaços”, salientou.
Ela destacou a apresentação da proposta de ampliação da lei sobre violência política de gênero. “Hoje a legislação restringe-se ao campo político-partidário. Mas precisamos reconhecer que a violência política também ocorre em outras esferas, por isso precisamos ampliar a lei para proteger todas nós”, defendeu.
A diretora Administrativa do SindBancários, Sílvia Chaves, reforçou os desafios históricos da luta feminista e a necessidade de união. “A luta por representatividade vem de muito tempo e precisa de continuidade. A terceira jornada ainda é um impeditivo real para a participação das mulheres nos diversos espaços. Por isso, precisamos nos unir, ampliar a luta para buscar compromisso coletivo e políticas públicas que garantam a equidade”, afirmou.
O encerramento do evento reafirmou a importância da ação coletiva para construção de políticas que reconheçam o trabalho reprodutivo, a existência plena das mulheres e a necessidade de ambientes seguros e acolhedores.
A secretária-geral observou que ainda é preciso avançar muito em termos de liberdade e representatividade. “A gargalhada de uma mulher, muitas vezes, é vista como debochada ou desrespeitosa. Fomos ensinadas a conter até nossa risada. Eu consigo rir e usar a minha voz, e quero ajudar a construir um mundo mais justo e igualitário para todas, onde as mulheres não sofram violência por serem mulheres e que possamos exercer nossa existência como a gente quiser”, sintetizou Sabrina.
As conferências livres fazem parte de um amplo processo participativo promovido pelo Ministério das Mulheres e pelo Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres, em parceria com os entes federativos e a sociedade civil. Com o tema “Mais Democracia, Mais Igualdade e Mais Conquistas para Todas”, a 5ª CNPM tem como proposta promover a escuta ativa e a representação plural de mulheres em todo o país.
Imprensa SindBancários