O mês de julho foi instituído como “Julho das Pretas”, tendo como marco o 25 de julho, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Durante o período, em todo o país são promovidas atividades para destacar a resistência das mulheres negras contra o racismo, a violência e as desigualdades estruturais.
Em Porto Alegre, nesta sexta-feira (25/7) ocorre um ato unificado, com concentração para marcha às 17h, no Gigantinho. Às 19h, será realizado o Encontro de Mulheres Negras, na Imperadores do Samba. No local, haverá feira de afroempreendedoras, espaço literário, de cultura e arte, gastronomia e música. A mobilização tem como mote “O machismo não pode ser tradição: mulheres negras pelo fim da escala 6×1, dos feminicídios, do genocídio, da fome e das violências de gênero!”. Saiba mais acessando o perfil no Instagram.
Em alusão ao 25 de julho, o SindBancários promove, na próxima segunda (28), cinedebate sobre a história da escritora e ativista Lélia Gonzalez, às 19h, no CineBancários. Após a exibição do documentário, ocorrerá um bate-papo com a presença de Kelly Quirino, consultora em Gênero e Raça, doutora em Comunicação pela UnB e ex-conselheira no Conselho de Administração do Banco do Brasil, e Priscila Aguirres, membro do BB Black Power e diretora Jurídica do Sindicato.
As negras latino-americanas e caribenhas somam mais de 200 milhões de pessoas que se definem como afrodescendentes, que juntas compartilham uma série de situações históricas nas quais estiveram inseridas. Ao falar de mulheres negras e indígenas, há que se considerar a questão de classe social, pois são as que mais sofrem com a pobreza, discriminação racial e de gênero, violência, exclusão social e econômica. As lutas por reparações, justiça, oportunidades, direitos e o fim do genocídio são diárias.
No dia 10 de julho deste ano, Ana Maria Gonçalves, autora do aclamado livro “Um Defeito de Cor”, fez história ao ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se a primeira mulher negra a ocupar uma das 40 cadeiras da instituição. Essa eleição ocorre 128 anos após a fundação da ABL por Machado de Assis, ele próprio um escritor negro.
Apesar da eleição de Ana Maria ser um marco, a presença de membros negros na ABL ainda é desproporcional à diversidade racial do Brasil. Outros escritores negros renomados que foram membros da ABL incluem João Ubaldo Ribeiro, que ocupou a Cadeira nº 34, e Domício Proença Filho, que ocupou a Cadeira nº 40.
A história da ABL revela uma linha conservadora que historicamente dificultou o reconhecimento de intelectuais negros. Um exemplo notório é o escritor carioca Lima Barreto, adepto do socialismo e autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, que foi recusado pela ABL por três vezes em 1918. O racismo da época não o reconhecia como intelectual. Ele faleceu em 1º de novembro de 1922, nove meses após a Semana de Arte Moderna de São Paulo.
Cem anos depois, em 2018, a ABL recusou a candidatura de Conceição Evaristo, mesmo após uma ampla campanha que buscava dar visibilidade à ausência de escritoras negras na Academia e apontava para a necessidade de renovação da instituição.
O livro “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves, é uma obra notável que apresenta um retrato original e pungente da exploração e da luta dos africanos na diáspora e de seus descendentes durante oito décadas da formação da sociedade brasileira. A narrativa é construída a partir da vida de Luísa Mahin, mãe do advogado negro Luiz Gama. A Bahia, com sua profunda dependência de escravizados africanos, é um cenário central na obra, ecoando versos como “Triste Bahia. Pé dentro pé fora, que tiver pé pequeno vai embora”, cantados por Caetano Veloso.
Em 19 anos, o livro vendeu 180 mil exemplares, um feito raro para um best-seller de quase mil páginas. Ana Maria é mineira, natural de São Pedro de Alcântara, local que foi o centro de um dos maiores quilombos do Brasil, o Quilombo do Ambrósio. Sobre sua paixão pela escrita, a autora, agora com o fardão da ABL, afirmou: “Assim como o pessoal fala de adrenalina de exercício, eu tenho adrenalina de leitura e de escrever”.
Fontes: Politize, Gênero e Número, Carta Capital, Horiens, UMASULAMERICANA, Deutsche Welle, ONU, Ministério da Saúde.
Moah Sousa / Assessoria SindBancários