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Na Copa do Mundo, o pessimismo foi goleado

22/02/16
Na Copa do Mundo, o pessimismo foi goleado

A maior virada da Copa do Mundo aconteceu nos estádios, mas não exatamente em uma partida entre duas seleções. O fiasco previsto durante a fase de preparação do torneio não se confirmou e o evento surpreende até os mais otimistas, raros antes do início do Mundial. Os prognósticos do “desastre” e do “fracasso sem precedentes” deram lugar a um estado de ânimo completamente oposto. Talvez não seja a “Copa das Copas” como defende a presidenta Dilma Rousseff, tampouco desenha-se o vexame anunciado (e freneticamente esperado) por muitos.

 

De uma tenebrosa “epidemia de dengue” à “vergonha” antecipada pelo oportunista Ronaldo, falou-se de tudo contra o torneio. O ex-jogador é, aliás, um fenômeno. Apoiou a Copa, depois a criticou. No mesmo momento, por coincidência, declarou apoio a Aécio Neves na sucessão presidencial. Novamente voltou a elogiar a competição no papel de comentarista da Rede Globo.

A má vontade da mídia nativa contagiou os jornalistas estrangeiros a ponto de, nos últimos dias, vários meios de comunicação do exterior virem a público fazer um mea-culpa em relação ao pessimismo demonstrado nos meses que antecederam o evento. O espanhol El País disse com todas as letras: “Não era para tanto”. Segundo o jornal, esperava-se “uma espécie de apocalipse brasileiro, em que pouco ou nada ia funcionar como devia”.

“Havia quem pintasse uma imagem negra desta Copa do Mundo que se podia resumir assim: estádios sem terminar aos que se chegava por estradas inconclusas, rodeados de manifestantes antifutebol e policiais antimanifestantes em meio a gangues de delinquentes assaltando o torcedor desesperado, que se maldizia por não haver se conformado em assistir às partidas pela televisão de sua casa e que não podia fugir dali porque o metrô não funcionava por causa de uma greve selvagem que afundava a cidade em um engarrafamento monstro, escuro e pronto”, escreveu o diário madrilenho.

O francês Le Monde saudou “a improvisação brasileira” que “se revela à altura do evento” e falou em “milagre” ao elogiar uma Copa feita à imagem e semelhança do País: “Bagunçado e simpático, descontraído e acolhedor”. O New York Times fez um resumo sob o título: “Previsões apocalípticas viraram pequenos soluços”. O Washington Post ecoou o otimismo: “Copa é só cerveja, praia e futebol”. Os britânicos Guardian e BBC seguiram em idêntica toada. Com aeroportos e estádios em ordem e as estatísticas sobre os gols se multiplicando, alguns meios estrangeiros chegam a ecoar Dilma: a “melhor Copa do Mundo da história”. Verdadeira zebra.

 

Na mídia brasileira, apenas o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, reconheceu o excesso de “negativismo” prévio. “Um balanço parcial do que aconteceu até agora livra o País da ameaça de um fracasso, fomentado pelos que, sob o pretexto de alertar para nossas deficiências, torciam contra o próprio país”, escreveu o diário gaúcho em editorial. E revelou o que muitos partidários da Copa perceberam desde o começo e que ficou evidente com o sucesso do evento. Havia críticas legítimas à realização do Mundial, mas muitos o atacaram com intuito meramente político. Resta uma pergunta: o Zero Hora integrava qual dos dois grupos?

Se o mau humor no jornalismo foi um fator decisivo para o pessimismo generalizado, a recíproca não se concretizou. Uma vez iniciada a Copa, uma onda espontânea de adesão surgiu e encontrou nas redes sociais o principal termômetro, motivado não só pela organização do Mundial em si, mas, principalmente, por um componente ignorado tanto pela mídia quanto pela oposição, o fator “boleiro”. Em outras palavras: a torcida se dispôs a colocar, ainda que brevemente, as insatisfações de lado para apreciar os jogos.

A força dos “boleiros” foi detectada em uma análise inédita feita pelo Laboratório de Estudos de Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo. Os pesquisadores têm monitorado diariamente as redes sociais desde o início da Copa e chegaram a conclusões curiosas. A primeira delas é cromática: se durante as manifestações de junho passado a cor predominante nas imagens divulgadas pela rede foi o preto, com a Copa predomina o verde e amarelo das camisetas da Seleção, das bandeiras e dos gramados. Em termos de palavras, a frase “não vai ter Copa”, que se espalhava pela internet antes da abertura, diminuiu de forma abrupta à medida que os jogos empolgavam.





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