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Fórum Social Mundial transcende á  oposição a Davos, afirma Chico Whitaker

22/02/16
Fórum Social Mundial transcende á  oposição a Davos, afirma Chico Whitaker

O Fórum Social Mundial (FSM), realizado pela primeira vez em Porto Alegre no ano de 2001, completa seus 15 anos e aporta, pela primeira vez, no hemisfério Norte, sediado em Quebec no mês de agosto. Também haverá uma edição comemorativa na Capital gaúcha, de 19 a 23 de janeiro

Um dos fundadores do evento, o arquiteto Francisco Whitaker, acredita que o fórum transcendeu a mera contraposição ao Fórum Econômico de Davos, na Suíça, também realizado em janeiro, e o próprio debate entre políticas de esquerda e direita.”A estratégia de tomar o poder tem dado demonstrações de que não funciona. Em quantos lugares os governantes entram e depois decepcionam? A começar pelo Brasil”, questiona.

Portanto, para Whitaker, apesar de ainda valer a máxima de que "um outro mundo é possível” mote do FSM desde a sua primeira edição , o propósito do evento é mais um espaço de reconhecimento mútuo do que um movimento novo. "A descoberta foi que podemos trabalhar juntos e, juntos, somos mais fortes.”

A premissa vale justamente na realização do FSM no Canadá. "O que se descobriu é que os problemas são exatamente os mesmos. O que se passa atualmente com a pobreza, o clima, as armas, acontece tanto nos países do Norte quanto do Sul. Onde se pode discutir o problema das imigrações? É no Norte”, defende Whitaker.

Perfil

Francisco Whitaker Ferreira, conhecido também como Chico Whitaker, nasceu em São Paulo em 1931. É formado em arquitetura e urbanismo pela Universidade de São Paulo. Durante a ditadura, exilou-se por 15 anos no Chile e na França. No Brasil, foi assessor da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, trabalhando com Dom Paulo Evaristo Arns. Foi membro do Plenário Pró Participação Popular na Constituinte, cuja ação levou às Emendas Populares à Constituição de 1988.

Foi vereador por dois mandatos em São Paulo, pelo PT. É membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz e do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral. Foi cofundador, em 2001, do Fórum Social Mundial, e atualmente é membro do seu Conselho Internacional. Recebeu em 2006, na Suécia, o Premio Nobel Alternativo (Right Livelihood Award). Em maio de 2012, foi incluído na Lista Anti-Forbes, das "100 pessoas que mais enriquecem o mundo”. É membro da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares.

Entrevista

Jornal do Comércio – Que balanço o senhor faz destes 15 anos de existência do Fórum Social Mundial?

Francisco Whitaker -O fórum, em primeiro lugar, foi uma bruta de uma inovação, no sentido da sua metodologia. Ele tem uma outra proposta, pois não se organizava se cima para baixo. Então, por exemplo, ele não tem um tema. O tema é "um outro mundo é possível”. E em torno disso, convidamos pessoas e, principalmente, organizações que estão atuando para mudar o mundo, para tratar dos temas que elas julgassem importantes. Inclusive, até hoje, muita gente não entende. Nós mesmos fomos descobrindo com o tempo qual era a especificidade de nossa proposta, e era essa de fazer um fórum que não é, nem pretendia ser, uma organização ou um movimento novo. Pretendia ser um espaço. No fundo, estávamos abrindo um espaço para as pessoas se encontrarem.

Muita gente que vinha para o fórum achava que era a grande oportunidade para se criar um novo movimento. Inclusive trotskistas, que criaram as quatro internacionais, diziam que estávamos criando a quinta. Mas nós, que estávamos nessa organização, achávamos que por aí não se chegaria a nada. Principalmente pelo fórum ser um espaço no qual as pessoas poderiam se reconhecer mutuamente. O fórum foi feito em um momento em que Davos estava em imensa expansão, como a única alternativa para dizer o que fazer no mundo. E nós dizíamos que não, que existem alternativas diferentes e gente que já mudava as coisas. Era muito interessante, ao longo do processo, quando alguém vinha e dizia "escuta aqui, vocês não estão tratando do tema mulheres”. Se você não veio propor, nunca será tratado. Só é tratado aquilo que as pessoas trazem. Isso mostra o processo do fórum ao longo dos 15 anos.

JC – Era uma horizontalidade que as pessoas não conheciam ainda.

Whitaker -E não conhecem até hoje. Até hoje dou entrevistas e o pessoal pergunta "quais foram os temas que vocês escolheram?”. Nós não escolhemos nada. Na verdade, é a soma dos temas que são trazidos que conduz o conteúdo. Isso fez com que, ao longo dos anos, novos temas emergissem de forma muito líquida. O fórum de 2009, por exemplo, que foi em Belém, foi o centro de uma problemática ecológica. Lá na Tunísia, foi muito em torno da democracia e da dignidade. Era um lugar que, em si mesmo, era o centro da mudança e derrubada de ditaduras na construção de uma democracia que respeitasse as pessoas. Isso surgiu por efeito local. Ou seja, era evidente que, no Norte da África, estavam se passando coisas muito importantes. A Primavera Árabe estava em plena eclosão.

JC – Esses desdobramentos são frutos do fórum? O que os movimentos como Ocuppy ou a própria Primavera Árabe devem ao FSM?

Whitaker -Não só a este fórum. As eleições no Brasil também foram ganhas pela dinâmica criada pelo fórum. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve o apoio muito grande das pessoas que participavam desse processo. A descoberta foi a seguinte, podemos trabalhar juntos e, juntos, somos mais fortes. O fórum cria essa oportunidade e a ocasião. Eu gosto muito da ideia de "reconhecimento mútuo”. Se há uma coisa que enfraquece a chamada esquerda é a divisão dela, a lógica da conquista da hegemonia. O que eles (Occupy e Primavera Árabe) pegaram do fórum? A horizontalidade, que é uma das propostas fundamentais. Ou seja, nenhuma atividade ganha caráter de atividade central, seja ela feita por uma enorme organização mundial ou por um grupinho que está trabalhando uma temática completamente nova. Todos têm o mesmo tempo e espaço. Às vezes, o mais importante é uma coisa totalmente nova, como a temática dos bens comuns, que identifica que o que é de interesse geral não pode ser controlado por uma pequena parcela da sociedade.

JC – O primeiro fórum era um contraponto a Davos. Ao que o Fórum Social Mundial se contrapõe agora?

Whitaker - Cada vez mais, o sistema neoliberal está forte. A lógica econômica do sistema capitalista está contaminando o mundo todo, principalmente após a queda do muro de Berlim, que encerrou a experiência socialista. O consumismo, por exemplo, é o mecanismo fundamental do sistema, que depende totalmente de que a gente consuma.

JC – Mas isso está sendo bastante contestado atualmente.

Whitaker - Esse é o nosso trabalho. Uma das coisas mais tristes que aconteceram no Brasil foi que o Bolsa Família tirou muita gente da miséria, mas os colocou como consumistas. No fundo, isso tinha que ser acompanhado por uma revolução cultural. Agora, não precisa que o fórum faça isso. A humanidade vai tomando uma tamanha consciência, que surge uma reação a isso. Temos que mudar nosso sistema de consumo. Se o mundo inteiro, ou mesmo só a China, entrar no modelo norte-americano de consumo, a Terra se transforma em um grande latão de lixo, e se acabam com os recursos da humanidade. Isso tudo foi a consciência que se tomou em Paris, na COP-21. A novidade dela é que temos de mudar nosso sistema, nosso modelo de produção, pois, se isso não acontecer, a mudança climática destruirá um monte de lugares e criará um monte de problemas. Mas, no fundo, às vezes, as pessoas ficam com nostalgia. "Poxa, nós éramos a antítese da Davos e agora não somos nada.” Mas o Fórum Social Mundial tem sido um processo cavalar de expansão dessas ideias, da revisão de tudo.

JC – O FSM mudou muito para além do debate sobre esquerda e direita. Além da questão ambiental, que outras variantes entraram?

Whitaker - Acho que a variante da democracia, também. A ideia de democracia somente representativa, com a limitação que ela tem. A questão dos partidos. No mundo inteiro, partidos estão em uma baixa desgraçada. A credibilidade do sistema político é zero, atualmente. Isso está sendo levantado no f&oac





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